Paradesporto 01/04/2016 08:53

Clodoaldo vai disputar as Paralimpíadas pela filha Anita

Por admin

Anita completa cinco anos em novembro, mas já sabe desde os dois anos como incentivar o pai-atleta. E foi pensando nos gritos de “Vai, papai”, que na época dos Jogos Paralímpicos de Londres ainda não eram possíveis, que Clodoaldo Silva adiou a aposentadoria. Para quem iria “pendurar a sunga” em 2012, disputar os Jogos em casa diante da família tornou-se um objetivo prazeroso.

“No final da Paralimpíada de Londres, falei que queria continuar, pela pressão – no bom sentido – da equipe, e das milhares de mensagens que recebi de todo o Brasil, mas principalmente porque a próxima Paralimpíada seria no Brasil, e pela minha filha”, disse o nadador de 37 anos.

Anita tem cinco anos e pela primeira vez acompanhará o pai-atleta numa paralimpíada (Divulgação/Nissan)

Anita tem cinco anos e pela primeira vez acompanhará o pai-atleta numa paralimpíada (Divulgação/Nissan)

Dono de 13 medalhas paralímpicas – seis de ouro, cinco de prata e duas de bronze – Clodoaldo vai disputar cinco provas nos Jogos 2016: 50m, 100m e 200m livre, 50m borboleta e revezamento 4x50m livre misto. Ele vê chance real de medalhas nas duas primeiras e acredita que pode beliscar um pódio nos 200m. O maior objetivo do atleta, entretanto, vai além dos resultados: Clodoaldo encara a Paralimpíada no Rio como uma oportunidade de chamar atenção para o respeito à pessoa com deficiência.

“Acho que vou conseguir contribuir muito mais sendo atleta do que como dirigente ou de outra forma. E não é estar no lugar mais alto do pódio necessariamente. As Paralimpíadas têm um recado para a sociedade brasileira: as pessoas com deficiência não são coitadinhas, não precisam de piedade, precisam de oportunidades, de ter as leis respeitadas. É essa mensagem que a gente vai passar e espero que seja o maior legado dos Jogos”, afirmou.

Medalhas e adversidades

Clodoaldo disputou o primeiro campeonato de natação em 1998. Desde o então, o currículo de conquistas cresceu rapidamente, com destaque para 2004, quando faturou sete medalhas em oito provas disputadas nos Jogos de Atenas, a segunda edição de Paralimpíadas de que participou. Para ele, foi um marco não só na carreira pessoal, mas para o esporte paralímpico brasileiro.

“O ano de 2004 foi um divisor de águas. Em Atenas, o Brasil ganhou 14 ouros, e eu saí de lá com seis ouros e uma prata. O Brasil começou a conhecer as Paralimpíadas e os atletas. Ali me tornei referência do segmento das pessoas com deficiência. Veio visibilidade, investimento, surgiram novos atletas, como Daniel Dias, André Brasil, no atletismo com Alan Fonteles, e tantas outras modalidades”, avaliou.

Seriam também as últimas Paralimpíadas de Clodoaldo na classe funcional S4. O nadador teve paralisia cerebral devido à falta de oxigenação no parto, o que afetou o movimento das pernas. Nas várias avaliações de classificação funcional a que foi submetido no início da carreira, ele sempre foi colocado na S4, até que foi reclassificado, na véspera dos Jogos de Pequim 2008, para a S5. Na natação, as classes S1 a S10 referem-se a atletas que possuem deficiência física, sendo que a S1 compreende os nadadores com grau mais alto de comprometimento, e a S10 com menor grau.

“Em 2008, decidiram alterar minha classificação e me colocaram na S5, onde eles têm uma funcionalidade maior que a minha. Eu consigo sair de cima do bloco, mas não tenho impulso, e na S5 eles têm. Numa prova de 100m, na caída eles têm ondulação, eu não tenho. Eles têm a virada olímpica, eu não. Ou seja, na questão da deficiência, eles têm o menor grau. Quando fomos reivindicar, eles (Comitê Paralímpico Internacional) disseram que a classificação estava mudando para todo mundo, mas naquele momento só mudou para mim”, relembrou.

De papa-medalhas de ouro e colecionador de recordes em 2004 , o tubarão – como é conhecido na natação paralímpica –ficou apenas com um bronze e uma prata em revezamentos em Pequim. O desafio da nova classe também rendeu consequências físicas, como duas hérnias de disco que, segundo Clodoaldo, surgiram em virtude do maior esforço que é feito para estar à altura dos competidores na S5. Mas nenhuma dificuldade foi forte o bastante para fazê-lo desistir.

“Nunca fui de lamentar, de me fazer de vítima, continuei normalmente, e foi a melhor decisão da minha vida. Hoje ganho menos medalhas, mas sou muito mais reconhecido, ganho mais dinheiro. Acho que é mais uma história de superação, não se pode desistir nas dificuldades, tem que estar sempre se reinventando”, disse.

Um mês antes de Londres 2012, a adversidade se materializou em lesão no ombro esquerdo. Poderia ter ficado de fora dos Jogos, mas Clodoaldo insistiu em disputar as provas. O melhor resultado foi um quarto lugar nos 50m livre, também na classe S5. E é nela que ele vai disputar as cinco provas em setembro de 2016.

A preparação 

Desde 2014, Clodoaldo treina num centro de referência da natação em São Caetano do Sul (SP), onde ele e mais dez nadadores da seleção – além de outros que realizam treinos rotativos por lá – contam com uma equipe multidisciplinar de 11 pessoas, sendo três técnicos, dois fisioterapeutas, um nutricionista, um massoterapeuta, um psicólogo, um biomecânico, um preparador físico e um médico.

“Pela primeira vez eu fui para um centro de treinamento, tenho uma permanência com outros atletas, estamos tendo um investimento inédito, uma estrutura que nunca tínhamos, vou chegar muito bem nos Jogos”, afirmou Clodoaldo, que tem patrocinadores e conta com a Bolsa Pódio do Ministério do Esporte.

O nadador conheceu as instalações do Centro Paralímpico Brasileiro, em São Paulo (SP), e está animado com a possibilidade de fazer lá a aclimatação para o Rio 2016.  Ele também já tem planos para a vida de ex-atleta após os Jogos, como por exemplo morar no Rio de Janeiro – onde já vivem Anita e a esposa Patrícia – e trabalhar com comunicação social

“Uma pessoa com deficiência, com a história que tive e tenho, e sendo desenrolado, acho que pode colaborar, não só para divulgação do esporte, mas da cidadania, da inclusão. A gente pouco vê nas redações pessoas com deficiências falando do segmento”, afirmou.

Mas o momento agora é de foco na preparação paralimpíca. “É finalizar uma carreira com chave de ouro, mas acima de tudo deixar o recado. Todos os atletas têm uma missão de conquistar medalhas, mas acima de tudo de dar dignidade às 45 milhões de pessoas que têm algum tido de necessidade especial. Hoje, se tem muito ganho, se teve muita evolução no segmento da pessoa com deficiência, tem muito a ver com a questão esportiva. O esporte deu visibilidade, através do esporte os governantes começaram a ver que precisam dar boas condições para as pessoas com deficiência, na acessibilidade, cidadania, na inclusão no mercado de trabalho”, disse.

Se por acaso alguma medalha vier, melhor ainda. Ainda que não seja bem isso que Anita quer do pai. “Não me sinto pressionado. Ela chega e fala: ‘papai, você vai ganhar o ursinho pra mim e a medalha pra mamãe”, disse.

Fonte: Carol Delmazo, brasil2016.gov.br

Ascom – Ministério do Esporte